A Rediscussão Historiográfica Brasileira das Identidades



"Só Varnhagen, ele reconhece, criticando o caráter escravista e latifundiário dessa colonização, lamenta não se ter adotado o sistema de doações de terras a agricultores europeus. Com doações pequenas, o Brasil teria atraído mais gente e constituído uma população mais homogênea. Varnhagen também propôs a servidão com o negro, sugerindo ter uma resistência maior à escravidão do que o próprio negro.

Varnhagen, portanto, mesmo sendo um dos primeiros grandes defensores da colonização portuguesa, lamentava que ela tivesse tido de ser latifundiária e escravista."(REIS, 1999, p. 56

Como argumentou recentemente José Carlos Reis, o olhar de Varnhagen sobre a história do Brasil assume integralmente a perspectiva do colonizador português, que conquistou índios e terras e submeteu à escravidão os povos africanos. Tudo justificado, ademais, em nome dos elevados princípios da civilização, de que eram portadores os brancos de origem portuguesa. Varnhagen tomará para si esta tarefa, sendo o primeiro "grande inventor do Brasil", através de uma história de visão heróica do colonizador português e de suas contribuições para a construção da identidade da "nova nação". O "colonizador" havia trazido em si a representação do progresso, das luzes e da civilização. Portanto, a circulação mais sólida seria dar uma "continuidade" e "descontinuidade", aos valores trazidos através das caravelas. O passado colonial devia, portanto ser "reconstruído" como suporte de um "Brasil branco e europeu". A interpretação de Varnhagen articulará os interesses dos "descobridores" do Brasil, e longe de ter um abordagem "imparcial" e "objetiva", em sua teoria esteve comprometida com a dominação colonial e justificou a submissão do povo e os direitos das elites. Embora o delineamento de sua obra estejam atrelada a construção da nação, legitimando o poder do Estado e do colonizador, ratificando uma "psicologia do colonizado", Varnhagen irá projetar isso de maneira mais perceptível ao envolver-se numa leitura do encontro das três raças: o índio, o branco e o negro pelo processo de miscigenação, na qual defenderá o branqueamento.

Esse processo de consolidação durante o império o Brasileiro e o século XIX como um momento onde a produção historiográfica ganha crescente importância na criação de identidades nacionais pelo mundo, objetiva refletir sobre o lugar ocupado pelos povos indígenas na construção da idéia de nação brasileira e, portanto, na formação da identidade nacional. Assim, a análise de sua obra nos oferece um privilegiado olhar sobre um dos mais influentes projetos oferecidos, pela intelectualidade oitocentista no Brasil, para a escrita da história da nação, tida como um marco para a historiografia brasileira, para refletir sobre o lugar dado pelo autor aos povos indígenas no processo de criação de uma identidade nacional brasileira.José Carlos Reis vem compreendendo esta relação aos povos indígenas, afirmando o seguinte:

"Quando Varnhagen fez a sua defesa da colonização portuguesa e da continuidade da sua obra pelo Brasil, ele não tinha opositores concretos, eficazes, poderosos, pois a dinastia que o governava o Brasil-colônia era a mesma que governava o Brasil-nação. Ele descreve e defende um Brasil que continuava, que superou rebeliões, separatismos, e que se unificou e se consolidou."(REIS, 1999, p. 57)

Segundo Reis, ressalta que a historiografia de Varnhagen, ao adotar o ponto de vista português e estabelecer uma continuidade entre América portuguesa e nação brasileira, distancia-se das tensões entre "nação" e "colônia" ou entre "novo" e "antigo" presentes nas reflexões dos homens diretamente envolvidos com o processo de independência. Sua historiografia passa muito longe, portanto, do nativismo que opunha brasileiros e portugueses e que elegia o índio como um dos símbolos da jovem nação. Varnhagen defende que a independência política da nova nação brasileira não pode significar o abandono do legado colonial e sim o aprofundamento dos vínculos do Brasil com Portugal. Nosso futuro deve ser nosso passado aprimorado, aperfeiçoado, ou seja, um Brasil português erigido pelas aristocracias brancas e fomentado pela Coroa, que agora já não é mais externa e sim interna.

A independência não veio contra a realeza, mas sim pelas mãos dela própria. Agora o Brasil era português, imperial e além de tudo independente. Caso as coisas não se dessem dessa forma certamente reinaria em nossas terras o caos, a fragmentação do território e o obscurantismo. O olhar de Varnhagen sobre a história do Brasil é o olhar do estrangeiro, do conquistador, do colonizador. Aos vencedores cabem todos os louros, aos derrotados, silêncio. Inclusive a própria vitória militar é já indício de superioridade, ela apenas confirma o já sabido. Para ele, os portugueses detêm todos os elementos necessários para a edificação aqui de uma nação grandiosa e bem sucedida, não havendo portanto motivos para resistências e rupturas.

Segundo José Carlos Reis afirma que o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre contribuiu muito para o entendimento do "reelogio da colonização portuguesa" através do seu processo da formação em torno civilização brasileira na década de 1930 do século XX. Reis analisa a especificidade do processo civilizador na cultura e na sociedade brasileiras. Toma-se como textos básicos "Casa grande e senzala (1933)", "Sobrados e mocambos (1936) e "Ordem e progresso (1959). Reis diz que Freyre utiliza os aspectos considerados triviais pela teoria social dominante, como costumes, receitas de cozinha, etiquetas, modos de lidar com o corpo, formas de alimentação, além de outros elementos de distinção social. Freyre entende a modernidade e a civilização brasileiras como resultado de uma forma específica da "reeuropeização" que transformou cultural e estruturalmente o país a partir de 1808 (vinda da família real) com a chega do Estado moderno e do mercado, instituições transformadoras das relações sociais. Ainda discorrendo sobre isto, José Carlos Reis, dizia que:

"Ele descobriu, junto com os franceses dos Annales, a história do cotidiano, a história das mentalidades coletivas, a renovação das fontes da pesquisa histórica: receitas culinárias, livros de etiquetas, fotografias, festas, expressões religiosas, brinquedos e brincadeiras infantis, cantigas de roda, histórias infantis, relatos de viajantes estrangeiros, autobiografias, confissões individuais, diários íntimos, lendas, folclore, periódicos... E sem neglicenciar ou dispensar as fontes institucionais, oficiais, estatais."(REIS, 1999, p. 54).

Neste fragmento acima, Reis vem abordando em grande parte de uma geração de intelectuais, especialmente Gilberto Freyre, que relê a história do Brasil de um novo lugar social. Por sua vez, esta instituição tem suas normas, modelos, práticas e preocupações, situação que vai estruturar toda uma leitura de redescoberta das origens do país, na qual a sociedade figura como tema principal. Desta maneira, estes estudiosos percebem a história nacional não apenas através de sua política e de suas elites, mas também através de sua cultura, suas raízes e suas tradições. Ao analisar o Brasil contemporâneo através do desenvolvimento de sua sociedade, estes pesquisadores exibem em seus trabalhos algo em comum, ao mesmo tempo em que diferenciam suas leituras através de suas referências teóricas, de seus instrumentos metodológicos e de suas demandas particulares. Devido a estas circunstâncias, o que se percebe são divergências e corroborações nos trabalhos propostos por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr., que ao estudarem a temática das origens da sociedade brasileira, apresentam importantes obras para a historiografia nacional. Assim nos esclarece o comentador José Carlos Reis,

"Consideramos que Casa grande & senzala poderia ser um livro mais conciso e mais preciso, menos repetivo. Outros analistas são mais indulgentes e até justificam, e com alguma razão, esta sua característica repetitiva. Para Motta ele teve uma intuição fundamental do Brasil que não poderia ser descrita de forma clara e distinta, acabada. Ele teve necessidade de retornos, repetições, que não são só repetições, mas ritmos, a retornada de motivos como numa sinfonia. A multiplicidade de ritmos, formas, cores, estilo, manifesta uma mesma intuição central, profunda, unificadora de toda a estrutura. Assim, Casa grande... não é uma obra de ciências sociais, no sentido estrito[..] Sua obra tem, na verdade, uma estrutura clara e sólida: o primeiro capítulo, "Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida"expõe de forma sintética as suas teses sobre o Brasil...."(REIS, 1999, p. 63)

Neste contexto, Reis mostra que Gilberto Freyre enfoca em seu livro "Casa Grande e Senzala", editado na década de 30 do século passado, apreende a sociedade brasileira, principalmente, através do hibridismo das três raças que constituem a maior parte da população do Brasil. Através desta entrada, Freyre exibe a mistura entre negro, índio e branco como algo positivo, pois, ao seu entendimento, a miscigenação é um dos elementos chave na conquista dos trópicos. Assim, este autor exibe uma reinterpretarão da mestiçagem da população brasileira, indo diretamente contra as teorias da época na qual sua obra foi lançada. Freyre mostra os portugueses como um povo indefinido, que por si só já é híbrido, de sangue mourisco nas veias, vivendo em um país situado no limiar ocidental da Europa, ajustado ao clima do norte da África. Ele exibe a população portuguesa como um povo apto a colonização dos trópicos, devido ao seu caráter prontamente miscigenado, de grande mobilidade, de fácil adaptação às circunstâncias e ao clima. Assim, é na mistura desta gente já miscigenada, ao índio e ao negro, que Freyre percebeu o triunfo da colonização européia. As teses de Gilberto Freyre corresponderam melhor à aliança que emergiu da revolução de 1930. Por isso tornaram-se hegemônicas. Elas serviram como uma luva à legitimação do pacto entre a burguesia industrial e a oligarquia mercantil-latifundiária. A hegemonia burguesa, no Brasil, fez-se pela resolução, pelo alto, das tarefas próprias da revolução democrático-burguesa, e o conluio entre os segmentos da grande burguesia brasileira, o imperialismo e seus representantes, e os grandes proprietários de terra, foi desfavorável à democracia. Afirmando em seu livro:

"Graças à sua miscibilidade, a colonização portuguesa foi a primeira européia a constituir uma sociedade moderna nos trópicos com características nacionais e permanentes. Os outros europeus amoleciam em contato com os trópicos. E não se misturavam com as mulheres de cor. O português, não: venceu o clima, o solo e miscigenou-se, criando uma população mestiça plenamente adaptada ao clima e à geografia. Aqui, houve o encontro, a intercomunicação e a fusão harmoniosa de tradições diversas de cultura. A cultura européia se pôs em contato com a indígena, contato amaciado pelo óleo lubrificante da mediação africana. A invasão, escravização e estupro de negras e índias pelos portugueses não foi "seca": foram lubrificados pela doçura africana, pela forte excitação da mulher indígena, pelos presentes e novidades dos brancos, pela adaptabilidade, aclimatabilidade, miscibilidade, plasticidade e falta de orgulho de raça do português."(REIS, 1999, p. 68)

É nesse ponto que o benefício da miscigenação à colonização, Freyre expõe e argumenta algumas questões relevantes para se entender à sociedade e sociabilidade brasileira. Em "Casa Grande & Senzala", este intelectual exibe ao Brasil a face agrária, escravocrata, patriarcal e híbrida da nação. Apresenta a sociedade brasileira através de sua cultura e de seus costumes, evidenciando o país como uma resultante, totalmente original, daquelas nações e povos que o formaram. Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, é um marco na tentativa de compreender as transformações sociais aceleradas de então, atualizando o pensamento oligárquico ao investir contra os preconceitos racistas e dar novos contornos à compreensão das relações étnicas no país. Foi pioneiro na reavaliação positiva da herança portuguesa e da mestiçagem, e a tentativa de compreensão mais acurada do país, ressaltando a originalidade de nossa civilização e cultura, são aspectos positivos e permanentes dessa obra que provocou escândalo e suscitou a oposição de escritores, sacerdotes católicos e intelectuais ligados à elite conservadora, agitação que levou muitos a considerá-la revolucionária, por não fugir ao enfrentamento dos velhos e ameaçadores fantasmas do imaginário de nossas classes dominantes.

Isto significa dizer que, não se pode esquecer o caráter mais profundo dos escritos de Gilberto Freyre, seu esforço de atualização do pensamento conservador, de acertar-lhe o passo com as mudanças sociais, apontando para um novo pacto político ameaçador para o exercício exclusivo do poder das velhas elites. A obra iniciada com Casa Grande & Senzala sinalizou à oligarquia uma forma nova de interpretar o país, indicando-lhe a necessidade de agir política e socialmente para adequar as velhas estruturas sociais à nova ordem, capitalista, que surgia, e sobreviver nela. É nesse sentido que aquela foi a obra de um conservador que mal disfarçava sua lealdade à própria classe. Outra ponto importante é a questão abordada por Freyre, em seu livro, é a importância da família patriarcal na colonização e na formação da sociedade brasileira. Para ele, a família rural é o grande agente colonizador do território. A sociedade patriarcal é

" aristocraticamente, à sombra das plantações de cana-de-açúcar, em casas grandes de taipa e cal. Não foram aventureiros. Vieram, venceram, ficaram e colonizaram. Sérgio Buarque de Holanda, logo depois, em 1936, terá uma visão diferente da colonização portuguesa: feita por aventureiros, que vieram, venceram a arruinaram a terra em busca de riqueza fácil e rápida. Não é o ponto de vista de Freyre. A colonização portuguesa não foi obra do Estado, da Coroa, da família real, mas corajosa família rural particular. Aqui aparece uma distância significa entre Freyre e Varnhagen: este defendia a colonização promovida pela família real, sua fidelidade era o rei; Freyre vê como sujeito da história colonial brasileira não a família real, mas a família rural portuguesa, que enfrentou com os seus parcos capitais e vigor físico as dificuldades da terra tropical, virgem e distante. Os portugueses foram os primeiros europeus que se estabeleceram de fato em colônias, vendendo o que possuíam na metrópole e transplantando-se com família e cabedais para os trópicos. Aqui, tinham liberdade de ação. A organização colonial não precedeu, mas sucedeu o desenvolvimento da colonização feita pelo particular."(REIS, 1999, p. 71)

José Carlos Reis afirma nesta citação, que Gilberto Freyre mostra que os vícios sociais não são por causa da miscigenação brasileira, mas sim, por causa atmosfera da monocultura escravocrata e da família patriarcal, que interferia diretamente no mando político. Ele vai diretamente contra a leitura evolucionista da época, ao contrapor a idéia de que o brasileiro era degenerado por causa do sangue negro e indígena, ao mesmo tempo em que revoga o etnocentrismo, ao avaliar a cultura brasileira através de valores próprios. Ele ainda mostra, que Gilberto Freyre analisa em sua obra uma sociedade cheia de antagonismos ao expor a escravidão e o intercâmbio sexual, o contrate entres as três culturas formadoras do país, o sincretismo religioso. Ao buscar as origens da sociedade brasileira, ele apresenta uma sociedade nova, fomentada por diversos valores, original em relação às culturas que a constituiu. No entanto, o que paulatinamente vai desaparecendo é a verdade de tipos e formas sociais que marcava a sociedade colonial, resultado do processo de civilização homogeneizador operado pelo Estado imperial preocupado com a manutenção da ordem assentada em bases novas uma ordem impessoal. Rompe-se, assim, a aliança patriarcalista, ou seja, do Estado, precipitando a decadência da experiência patriarcal fundada nas relações pessoais. Interrompe-se, com isso, o equilíbrio de antagonismos marca da sociedade colonial e abre-se espaço para os conflitos que se explicitam tanto no espaço privado quanto ao público.

José Carlos Reis, que a grande importância para historiografia brasileira é a obra Raízes do Brasil, escrita por Sérgio Buarque de Holanda, no ano de 1936. Neste livro o autor discute o choque entre a tradição e modernidade na sociedade brasileira. Para tal, ele busca nas raízes desta sociedade uma explicação para o atraso social existente no país, produzindo, ao mesmo tempo, hipóteses para uma possível superação deste retrocesso.Segundo este autor, a formação do Brasil contemporâneo está diretamente ligada às origens da sociedade brasileira, ou seja, está atrelada a colonização e ao seu legado cultural, político e institucional. Assim, o tradicionalismo da política brasileira vem de seu passado ibérico, ou seja, de suas raízes. Sérgio Buarque percebe que a modernização é impedida pela herança de uma tradição ibérica e que a absorção das instituições portuguesas, dotadas de uma historicidade própria, traz consigo uma incompatibilidade com o contexto social brasileiro, evidenciando uma incapacidade de mudança adaptativa as necessidades existentes. É através desta compreensão que ele formula alguns conceitos fundamentais ao entendimento de sua obra.

É evidente que ainda no que diz respeito à "geração de 1930", não podemos deixar de mencionar a importância dos trabalhos de Sérgio Buarque de Holanda para a interpretação da sociedade colonial "brasileira". Raízes do Brasil é publicado em 1936. Com um estilo econômico, de leitura fácil e agradável, este trabalho está preocupado em verificar elementos psicológicos e sociológicos da nossa formação histórica colonial, na qual Sérgio Buarque de Holanda encontra as raízes explicativas para o nosso estágio de desenvolvimento na década de 1930, encontrando as explicações na metáfora, por exemplo, do semeador, ou na "irracionalidade", preferiríamos dizer racionalidade barroca, do homem cordial, movido pela emoção e não pela razão, vasculhando para isso Sérgio Buarque um grande número de crônicas coloniais e relatos de viagem, além de considerável bibliografia, sendo ainda assim o seu trabalho portador de um tom ensaísta.

É interessante notar que o primeiro conceito que Reis usa para explicar a sociedade através de suas origens é a cultura da personalidade. Para ele, a cultura da personalidade é a frouxidão de laços sociais que implicam em formas de organização solidária e ordenada. É uma cultura que atribui valor ao indivíduo autônomo e não à organização espontânea, formada pela coesão social. Por sua vez, este predicado está intimamente ligado à outra herança ibérica, que é a repulsa ao trabalho. Segundo José Carlos Reis, afirma o seguinte:

" Para melhor conhecer e analisar a colonização tropical ibérica, S. B. de Holanda constrói dois tipos: o do aventureiro e o do trabalhador. Segundo ele, são duas orientações gerais que se combatem na atividade dos homens. O tipo do aventureiro: o objetivo final é mais importante do que os meios; seu ideal é colher o fruto sem plantar a árvore. Ele ignora fronteiras, é espaçoso, invasor, ladrão, aceita riscos, ignora obstáculos e, quando os encontra, transforma-os em trampolins. É audaz, imprevidente, criativo, ocioso e vê longe. Quer a recompensa sem esforço. Não visa à estabilidade, à paz, à segurança pessoal. O trabalhador lhe parece estúpido e mesquinho. Esse tipo aventureiro encarna-se em ladrões, traficantes, empresários desonestos, estelionatários, gente que manda fazer e explora o esforço do trabalhador. Entretanto, o tipo aventureiro não precisa se encarnar necessariamente nesses personagens que agem contra a sociedade. A audácia pode servir à sociedade, e as que mais se destacaram foram as que souberam aliar de forma criadora aventura e trabalho."(REIS, 1999, p.125)

É neste fragmento acima, que Reis analisa justamente essa característica fundamental ao entendimento da sociedade contemporânea através de suas raízes é a ética da aventura. É através desta análise que Holanda explica como ocorreu a exploração das terras portuguesas no novo mundo. Também é através deste princípio que ele exibe a figura do aventureiro e do trabalhador, par ideal de conceitos antagônicos formulado pelo autor através de concepções weberianas. Reis afirma, que para este estudioso, a colonização do Brasil foi promovida pelo espírito do português aventureiro, que exibe a mobilidade e a adaptabilidade, que nega a estabilidade e o planejamento, que corrobora com a cultura do ócio e se distingue do tipo trabalhador, e de sua ética do trabalho, que preza pelo esforço sem a perspectiva deste rápido proveito material. Também é através dessa negação do trabalho, somada a falta de planejamento, a uma demanda de mercado e, a pequena população do reino, que aparece um dos principais elementos da colonização portuguesa no Brasil, a escravidão do africano.

Em seguida, podemos perceber que esta análise feita por Sérgio Buarque de Holanda, encontra-se o terceiro conceito por ele formulado, o ruralismo. E É nesta característica que aparece outro grande componente da sociedade brasileira, a família patriarcal. É a partir desta outra herança ibérica, que este estudioso propõe a quarta consideração sobre o tradicionalismo brasileiro, o homem cordial. Por sua vez, este é o símbolo da relação social sem formalidade, que leva para a vida pública a vida privada, ao propor acesso à existência política através de relações sociais de proximidade e afetividade.

É importante, entretanto, que é através da busca das raízes da sociedade brasileira, que Sérgio Buarque de Holanda exibe a origem do tradicionalismo, ou seja, do conservadorismo que impede a modernização do Brasil através da constituição de um Estado Liberal. É através destas origens sociais, que ele insere sua argumentação crítica e propõe uma revolução pautada pela reforma política, pela busca da meritocracia, da impessoalidade na vida pública, pelo planejamento, pelo resultado em longo prazo, ou seja, pela criação de algo que atenda as necessidades modernizadoras da nação.

De toda forma ao reler a gênese da sociedade brasileira, Sérgio Buarque de Holanda lança mão de referências teóricas desenvolvidas pela sociologia alemã. Como já foi citado anteriormente, este estudioso se inspira na obra de Max Weber, principalmente, quando ele propõe um estado liberal à nação brasileira e expõe um par ideal de conceitos opostos, simbolizados pela figura do aventureiro e do trabalhador. Para ele a modernidade está inserida na cultura urbana, letrada, baseada no trabalho e no capitalismo.

Essa articulação se concretizou, na a análise feita por Sérgio Buarque de Holanda, encontra-se o terceiro conceito por ele formulado, o ruralismo. É nesta característica que aparece outro grande componente da sociedade brasileira, a família patriarcal. Ele ainda ressalva que mesmo os intelectuais advêm do ruralismo, pois estes são os filhos dos fazendeiros e que se "deram ao luxo" de ter idéias diferentes dos pais. É necessário lembrar que essas idéias novas dos intelectuais também remetem ao personalismo, pois não são cultuadas para colocá-las em prática, mas apenas para a exibição do conhecimento como status.

Cabe observar que é a partir desta outra herança ibérica que este estudioso propõe a quarta consideração sobre o tradicionalismo brasileiro, o homem cordial. Por sua vez, este é o símbolo da relação social sem formalidade, que leva para a vida pública a vida privada, ao propor acesso à existência política através de relações sociais de proximidade e afetividade. O homem cordial não se dá com a relação fria do Estado, e por isso essa instituição é tão fraca entre os ibéricos. Além disso, essa cordialidade não pressupõe bondade, mas apenas identifica que o homem cordial não se guia pela racionalidade, e sim pelas suas emoções. Assim, essa emotividade pode ser boa ou má, apenas não será guiada pela razão. Assim, é através da busca das raízes da sociedade brasileira, que Sérgio Buarque de Holanda exibe a origem do tradicionalismo, ou seja, do conservadorismo que impede a modernização do Brasil através da constituição de um Estado Liberal. É através destas origens sociais, que ele insere sua argumentação crítica e propõe uma revolução pautada pela reforma política, pela busca da meritocracia, da impessoalidade na vida pública, pelo planejamento, pelo resultado em longo prazo, ou seja, pela criação de algo que atenda as necessidades modernizadoras da nação.

Raízes do Brasil é um ensaio de grande valor não apenas científico, mas literário, que vai buscar as origens do Brasil em Portugal e no latifúndio escravocrata ou na família patriarcal rural. Usa de um método dialético para exprimir com riqueza as contradições do objeto que está analisando. Sérgio Buarque reconhece, com menos ênfase que em obras de outros autores, como seu contemporâneo Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala, o caráter mestiço da formação social brasileira, produto de ampla miscigenação com o índio e o negro. Ele faz a crítica da colonização portuguesa e da sua natureza aventureira e patriarcal. Em Raízes do Brasil temos a sugestão de três elites, a patriarcal rural, a patrimonialista urbana que se constitui já no império e a burguesa paulista de base cafeeira. O autor sugere que o Brasil está passando por "uma grande revolução" desde meados do Século XIX, que tem na elite cafeeira e em setores urbanos mais amplos da sociedade sua base. Sérgio Buarque salienta as limitações da elite dirigente rural e substitui a harmonia pelo "homem cordial". Segundo Reis:

"O homem cordial quer ser íntimo, quer ser amigo, não quer ficar sozinho. Tem horror às distâncias e, se elas existem concretamente, ele simplesmente as abole. Por exemplo: na expressão religiosa, torna-se íntimo de Cristo e dos santos; na relação com os superiores "bacana", "gente fina e boa", "simples e humilde, isto é, próximo e pessoal. Esse homem cordial está longe de aceitar uma ordem coletiva impessoal, legal. Ele é individualista, indisciplinado. Quando é intelectual, nutre-se de idéias contraditórias, acredita em todas e defende todas. Ele prefere as teorias mais sistemáticas, dogmáticas, que oferecem um ilusório repouso espiritual. A personalidade cordial está pronta para obedecer cegamente ao líder carismático, à idéia sistemática. Não importa se fala da realidade! Aliás, é até melhor que não fale! Ele está pronto a assimilar qualquer idéia, desde que exposta em uma relação cordial, isto é, de coração a coração,afetuosa ou agressivamente."(REIS, 1999, p. 136)

Cremos que esta contribuição de Reis, o homem cordial é a síntese de todo esse processo. A herança ibérica, específica dentro da Europa, consegue manter-se estruturada enquanto visão de mundo, passando ao largo das grandes transformações que abalaram a sociedade européia, como a Reforma protestante e as revoluções científicas, e apontaram para o caminho de uma maior racionalização das relações sociais. Tal caminho é francamente distinto daquele trilhado pela cultura da personalidade. Esta resistia a qualquer tipo de visão de mundo que, ao fundamentar-se num princípio abstrato e ordenador, exigia disciplina para sua consecução. Será esta cultura, de limitada capacidade de abstração, objetivação e planejamento, que engendrará o processo de colonização de uma forma quase anárquica. Ele será estruturado em grandes propriedades monocultoras e escravistas, fechadas em si mesmas, com maior relação com o exterior da colônia, a Metrópole principalmente do que com seus vizinhos. Daí a força do princípio mais básico de autoridade, a autoridade patriarcal, e sua exigência indiscutível de obediência e submissão.

A partir daí podemos entender que a idéia de cordialidade repete, não pode ser compreendida de forma alguma como caráter nacional ou qualquer tipo de essência imutável, mas como um conceito útil para o bom entendimento do nosso passado colonial e de sua crise. Além disso, Sérgio não concebe a cordialidade com um bem exótico, perdidas pelas sociedades, mais racionalizadas, do qual nós seríamos os "felizes guardiões". Ele não se deixa convencer, pelo menos não plenamente, como veremos, pelas "verdades" do sentimento e da emoção. Ao colocar a civilidade como o tipo oposto ao da cordialidade, ele percebe as nossas dificuldades às portas do mundo moderno.

Percebe-se por essa leitura que a oposição cordialidade-civilidade tem sua leitura mais simples e conhecida na oposição entre a cordialidade representada por uma emoção verdadeira e natural, o "fundo emocional rico e transbordante" que caracteriza, o ambiente familiar, e a civilidade como mímica artifício e impessoalidade. Tratar-se-ia, simplesmente, de valorizar a relação cordial em oposição à esterilização das emoções realizada pela racionalização advinda do capitalismo.

Tratando a cordialidade de forma objetiva, ele é capaz de apreendê-la como conceito-síntese da nossa herança colonial e constatar que está "cultura herdada" está se esfacelando pelas modificações que se operam na estrutura social. A cordialidade torna-se passado. Entretanto, a discussão da influência dos nossos ancestrais é, ainda um dado de grande importância na análise do processo que se desenvolve. Se recuperarmos a sua crítica ao intelectualismo e à racionalização, que pressupõem a redução e morte da espontaneidade e da pluralidade da vida, poderemos entender a discussão a partir do problema de como modernizar-se sem objetivar e reduzir ás relações sociais.

Em suma, este aspecto se coaduna com a concepção modernista de recuperar no passado a especificidade da cultura nacional, de forma a relacioná-la e integra- lá, como contribuição particular, ao moderno e ao universal. O estudo e compreensão da vida e morte da herança colonial podem abrir as portas a uma possibilidade de modernização que evite os caminhos clássicos do "absolutismo da razão". A contribuição brasileira para a civilização será então, o "homem cordial". Cordialidade esta que não é sinônimo de civilidade de polidez, mas que vem de cordes, coração. A impossibilidade que o brasileiro tem em se desvincular dos laços familiares a partir do momento que esse se torna um cidadão, gera o "homem cordial". Esse homem cordial é aquele generoso, de bom trato, que para confiar em alguém precisa conhecê-lo primeiro. O Brasil é uma sociedade onde o Estado é apropriado pela família, os homens públicos são formados no círculo doméstico, onde laços sentimentais e familiares são transportados para o ambiente do Estado, é o homem que tem o coração como intermédio de suas relações, ao mesmo tempo em que tem muito medo de ficar sozinho.

Em outras palavras, os termos da análise de Buarque de Holanda são bastante significativos: formas de convívio, instituições, idéias. Longe de representar uma tentativa materialista de compreensão do social, o estudo deste autor constitui uma corrente interpretativa voltada para o conteúdo mental dos atos humanos, considerados mais importantes do que as determinações econômicas. Ao descrever as características assumidas pela colonização portuguesa no Brasil, Buarque de Holanda recorre sempre, como elemento compreensivo, ao caráter cultural do povo ibérico que emigrou para as terras coloniais. O primeiro capítulo de Raízes do Brasil deixa isto bem claro, quando o autor refere-se ao "personalismo exagerado" dos portugueses, à sua "tibieza de espírito de organização" e ao seu "sentimento de irracionalidade específica dos privilégios e das hierarquias". Cada uma destas facetas da mentalidade lusitana seria decisiva não apenas para que Portugal se tornasse uma nação colonizadora, mas também para a configuração cultural da nova nação que surgiria da expansão ibérica, ou seja, o Brasil. Do ponto de vista teórico, essa interpretação, resumida no acima mencionado julgamento de Buarque de Holanda sobre o quanto os brasileiros sentem-se como estranhos em sua própria terra, demonstra que para o autor as idéias são tão autônomas em relação ao "mundo material" que toda uma sociedade foi formada a partir de uma cultura importada sem que os aspectos do novo ambiente fossem fortes o bastante para imprimir-lhe uma essência radicalmente própria.

Antes de adentrar na corrente interpretativa formulada por Gilberto Freyre, em cujo bojo as considerações sobre o elemento racial são de extrema importância, penso ser necessário tratar de ver como este elemento aparece nas visões de Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda. Para o primeiro, a utilização dos negros e dos indígenas como escravos requeria dos mesmos com a sua força de trabalho, seu potencial físico, e nada mais. Assim constata que:

"A contribuição do escravo preto ou índio para a formação brasileira, é além daquela energia motriz quase nula. Não que deixasse de concorrer, e muito, para a nossa "cultura", (...) mas é antes uma contribuição passiva, resultante do simples fato da presença dele e da considerável difusão do seu sangue (...). O cabedal de cultura que traz consigo (...) é abafado, e se não aniquilado, deturpa-se pelo estatuto social, material e moral a que se vê reduzido seu portador. Age mais como fermento corruptor da outra cultura, a do senhor branco que se lhe sobrepõe."(PRADO, 1971, p. 272)

O autor continua levantando questões sobre este ponto de vista tão "longe" que, baseado em uma "escala hierárquica de evolução civilizatória" de critérios questionáveis, faz afirmações que acabam retrocedendo para um certo preconceito, pois, comparando a escravidão antiga e a moderna, afirma que enquanto na primeira a os senhores puderam até mesmo aprimorar sua cultura aprendendo com os escravos vindos de civilizações superiores, na segunda ocorreu o inverso, havendo um imenso prejuízo cultural tanto para os dominadores quanto para os dominados. O raciocínio de Buarque de Holanda, por outro lado, é bem diverso. Considerando a "plasticidade social" dos portugueses como uma virtude cultural, o autor descreve-os como um povo de mestiços, quase sem orgulho racial, de modo que sua obra colonizadora soube aproveitar-se dos benefícios da miscigenação entre eles e os povos que conquistaram. Negando interpretações como a de Prado Jr., Buarque de Holanda afirma que

"o escravo das plantações e das minas não era um simples manancial de energia, um carvão humano à espera de que a época industrial o substituísse pelo combustível. (...) Sua influência penetrava sinuosamente o recesso doméstico, agindo como dissolvente de qualquer idéia de separação de castas ou raças, de qualquer disciplina fundada em tal separação." ( HOLANDA, 1989, p. 24)

Estas observações acima trata-se um debate sobre as correntes interpretativas propostas pelos autores em questão reside na importância que as discussões sobre a raça adquiriram entre os estudiosos da realidade brasileira nas primeiras décadas do século XX. Para perceber em que medida eles inovaram ou não em suas reflexões sobre a história do Brasil, é preciso comparar seus pontos de vista com aqueles que os antecederam. Deste modo, as análises de muitos dos intelectuais da década de 20 construíam suas visões sobre a formação nacional tomando como pressuposto a inferioridade física, psicológica e moral das "raças não brancas" e os problemas gerados pela miscigenação.

Caio Prado Jr. e Sérgio Buarque de Holanda rompem com estas proposições, pois enquanto o primeiro explica a posição social inferior dos negros e de seus descendentes a partir de uma história de séculos de escravização que produziram a subordinação deles para garantir a riqueza dos brancos, o segundo salienta as vantagens da mestiçagem para o processo de colonização do Brasil, não considerando que a miscigenação possa ser vista como um problema para a nação que se havia formado através da "plasticidade social" lusitana. Refletindo sobre o momento em que escrevia sua obra, Prado Jr. diz, inclusive, que a mistura de raças poderia até mesmo ser vantajosa para o Brasil, posto que os negros não seriam dotados de qualquer deficiência orgânica inerente, como propunham os racistas.

Na concepção de Caio Prado Júnior, a ação missionária junto aos índios, especialmente aquela desenvolvida pelos jesuítas, não serviu ao propósito de solucionar o conflito de interesses entre moradores e administração portuguesa. Na verdade, tornou a situação ainda mais complexa, pois as missões religiosas não eram simples instrumentos da colonização. Em outras palavras, as "reduções" ou "aldeamentos" indígenas funcionavam à base de um sistema de segregação que interditava não apenas a plena escravização do índio pelo colono, mas também a sua utilização eficiente na obra da colonização da América portuguesa, de acordo com os objetivos da metrópole. Caio Prado, o impasse em torno da questão indígena, durante o período colonial, só foi solucionado graças às leis pombalinas que, em síntese, procuravam impedir tanto a escravização do índio, pois instituíram a liberdade daquele segmento social, quanto sua segregação em reduções por meio da criação de vilas onde se tornava obrigatória a língua portuguesa, permitia-se o uso do trabalho indígena mediante remuneração e incentivavam-se os casamentos mistos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICA

  • HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989.
  • PRADO JR., Caio. Formação do Brasil Contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1971.
  • REIS, José Carlos. "Anos 1930: Gilberto Freyre - O Reelogio da Colonização Portuguesa". In.: As identidade do Brasil 1. Rio de janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1999, p. 51 – 82.
  • REIS, José Carlos. "Anos 1930: Sérgio Buarque de Holanda – A superação das raízes ibéricas". In.: As Identidades do Brasil 1. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1999, p. 115 - 147.

Autor: Luciano Agra