Letramento E Filme Central Do Brasil



O premiado filme “Central do Brasil”, de Walter Salles, retrata inúmeras tragédias vividas por imigrantes brasileiros que sofrem com a separação, desintegração familiar e a degradação social dos professores. Dora personagem de Fernanda Montenegro, vive a história de uma professora primária que escreve cartas para analfabetos, chegando a praticar pequenos golpes. Envolve-se com o garoto Josué e, desta forma, também acaba crescendo como figura humana ao interagir com as vidas de outras pessoas. “Os eventos de letramento ocorrem em diversos espaços sociais que se realizam práticas letradas e demandam qualquer nível de familiaridade com a escrita”. Assim, o filme não tem a função de “introduzir formalmente os sujeitos no mundo da escrita”, mas a partir da prática exercida por Dora não se perde o sentido, o entendimento do letramento por meio das noções de sujeito alfabetizado ou não-alfabetizado, tidas como parâmetros nas práticas escolares e sociais que usam a escrita em contextos específicos, para objetivos específicos, mas nos faz pensar sobre o que é leitura e o papel da escola na formação do leitor, modos significados e sentidos de aprender a ler.

Com a busca por um sentido em sua vida, procurar o pai que não conhecia, Josué, em companhia de uma professora, passa por vários locais onde o letramento é percebido por seus sentidos e provoca questionamentos , formação do leitor e o conceito de leitura de que ler é decodificar sinais gráficos que representam determinados sons e este ato, não é privilégio de todos, porém no momento atual, parece inconcebível que se reduza o conceito de leitura à mera decifração de palavras, mas se perceba nestes eventos de letramento formas relacionadas ao contexto sociocultural de leitura da sociedade ou do povo brasileiro.

A história de Dora, que escreve cartas na estação Central do Brasil para pessoas analfabetas nos mostra que muitas pessoas nesse país ainda não sabem ler ou escrever e que o drama do analfabetismo esta presente em todos os lugares. Nos reportamos e imaginamos uma pessoa não ser capaz de ler uma placa, um cartaz, o letreiro de um ônibus ou um artigo de jornal. Algum dia será possível deixar para trás esse contexto a que estão submetidos alguns milhões de brasileiros? O que podemos fazer para superar as dificuldades e dar oportunidades para cada um desses analfabetos? Talvez não muita coisa, mas podemos perceber uma relação de cordialidade e extrema confiança entre pessoas alfabetizadas e não alfabetizadas, onde até seus segredos mais íntimos eram revelados a protagonista e os personagens interagem de forma muito confiante descrevendo situações críticas pelas quais passam em vastas áreas de nosso país, permitindo a ela dissertar da forma que mais achasse apropriada sobre o tema que lhe era exposto.

Em Central do Brasil os personagens têm uma forte carga dramática o que lhes confere a apresentação de um perfil psicológico bastante definido, pois compara diferentes realidades, identifica paisagens, entende o sentimento religioso dessa população humilde e nos posiciona perante grandes problemas nacionais de comunidades lingüísticas desde a central carioca até o nordeste brasileiro, numa visão contextual, onde o letramento, uso de texto escrito em contextos sociais, nos faz observar práticas lingüísticas em situações em que tanto a escrita como a fala são centrais para as atividades comunicativas no desenrolar da história, através de algumas palavras escritas ou faladas.

A beleza do filme Central do Brasil é mostrar que nada substitui o amor ao próximo, como a amizade existente entre o garoto Josué e a sua mãe substituta, a Dora, pois apesar desta relação ter começado com troca de insultos e talvez com um pouco de raiva, evoluiu para uma relação de carinho e cumplicidade entre os dois e desenvolveu-se uma amizade fundamentada pela palavra escrita, mostrada num momento de extrema necessidade, tornaram-se cúmplices na escrita de cartas para os analfabetos que procuravam transmitir a seus entes queridos palavras de carinho e amor.
Autor: Marilene Schwinn