O Que é ética



APRESENTAÇÃO

Este resumo refere-se ao tema do que é ética relacionado ao livro de Álvaro Valls, no entanto a mesma está na ordem do dia.

Todos os dias nossas vidas, nossas relações pessoais e profissionais, nossas atitudes são moldadas por idéias e conceitos que "moram" dentro de nós.

Refletir sobre a ética é contribuir para aumentar a reflexão sobre a ação humana, tornando-nos mais sensíveis e mais sensatos, porque ela nos aproxima da realidade e· nos torna mais conscientes das ações que praticamos em qualquer espaço da nossa vida.

OS PROBLEMAS DA ÉTICA

A ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta.

Mas também chamamos de ética a própria vida, quando conforme aos costumes considerados corretos. A ética pode ser o estudo das ações ou dos costumes, e pode ser a própria realização de um tipo de comportamento. No entanto deveria chamar-se uma ciência normativa.

Segundo Álvaro Valls didaticamente, costuma-se separar os problemas teóricos da ética em dois campos: num os problemas gerais e fundamentais (como liberdade, consciência, bem, valor, lei e outros); e no segundo, os problemas específicos de aplicação concreta como os problemas de ética profissional, de ética política, de ética sexual, de ética matrimonial, de bioética etc.

A ética se distingue de outros ramos do saber, ou de outros estudos de comportamentos humanos, como o direito, a teologia, a estética, a psicologia, a história, a economia e outros. /

Especificamente ética parece ser absolutamente fundamental. Os costumes mudam e o que ontem era considerado errado hoje pode ser aceito. Quem se comportasse de maneira discrepante, divergindo dos costumes aceitos e respeitados, estaria no erro, pelo menos enquanto a maioria da sociedade ainda não adotasse o comportamento ou costume diferente.

É claro que, de qualquer maneira, a ética tem pelo menos também uma função descritiva: precisam procurar conhecer, apoiando-se em estudos de antropologia culturais e semelhantes aos costumes. Os costumes das diferentes épocas e dos diferentes lugares. Mas ela não apenas retrata os costumes: apresenta também algumas teorias, que não se identificam totalmente com as formas de sabedoria que geralmente concentram os ideais de cada grupo humano. A ética tem sido também uma reflexão teórica.

Segundo Álvaro Valls a humanidade só refere por escrito depoimento sobre as normas de comportamentos (e teorias) dos últimos milênios, embora os homens já existissem há muito tempo. Mas é importante então lembrar que as grandes teorias éticas gregas também traziam a marca do tipo de organizações social daquela sociedade, a mesma ajudam a compreender a distância entre as doutrinas éticas escritas pelos filósofos.

Porém o que os gregos pensavam da pederastia, ou os casos em que os romanos podiam abandonar uma criança recém-nascida, ou as relações entre o direito de propriedade e o "não cobiçarem a mulher do próximo", o casamento com uma prima em quinto grau constituía uma culpa mais grave do que o abuso sexual de uma empregada do castelo. Não são apenas os costumes que variam, mas também os valores que os acompanham, as próprias normas concretas, os próprios ideais, a própria sabedoria, de um povo a outro.

Deve haver um princípio ético supremo, que perpasse a pré-história e a história da humanidade. Casar com uma prima de até sétimo grau era um crime e um pecado. O costume então era bastante matreiro: os nobres se casavam sem perguntar pela genealogia, e só se preocupavam como o incesto quando eventualmente desejassem dissolver o casamento, anulando-o. Mas então temos de nos perguntar qual a importância desta regulamentação ética para nós hoje, numa época de capitalismo avançado (ou mesmo selvagem), onde a grande maioria se sustenta ou empobrece graças exclusivamente ao seutrabalho pessoal, à sua força de trabalho, independente de linhagem e de herança.

Pois os protestantes, principalmente os calvinistas, sempre valorizaram eticamente muito mais o trabalho e a riqueza, enquanto os católicos davam um valor maior à abnegação, ao espírito de pobreza e de sacrifício.

Sendo que a contrapartida nos permite entender por que, no século passado, o ideal do homem cristão enaltecia muito mais o burguês culto, casado, com famílias grandes e boas economias acumuladas, cultor da vida urbana e social. E os grandes pensadores éticos sempre buscaram formulação que explicassem, a partir de alguns princípios mais universais, tanto a igualdade do gênero humano no que há de mais fundamental, quanto às próprias variações.

Dois nomes merecem ser logo citados como estrelas de primeira grandeza desse firmamento: o grego antigo Sócrates (470- 399 a.C e o alemão prussiano Kant (1724- 1804).

Sócrates, o filósofo que aparece nos Diálogos de Platão, usando o método da maiêutica (interrogar o interlocutor até que este chegue por si mesmo à verdade, sendo o filósofo uma espécie de "parteiro das idéias"), foi condenado beber veneno. A acusação era de que ele seduzia a juventude, não honrava os deuses da cidade e desprezava as leis da polis (cidade-estado). Sócrates obedecia às leis, mas as questionava em seus diálogos, procurando fundamentar racionalmente a sua validade. Ele ousava, portanto, perguntar se estas leis se eram justas. E mesmo que chegasse a uma conclusão positiva, o conservadorismo grego não podia suportar esse tipo de questionamento, pois as leis existiam para serem obedecidas, e não para serem justificadas.

Sócrates foi chamado, muitos séculos depois, "o fundador da moral", porque a sua ética (e a palavra moral é sinônimo de ética, acentuando talvez apenas o aspecto de interiorização das normas) não se baseava simplesmente nos costumes do povo e dos ancestrais, assim como nas leis exteriores, mas sim na convicção pessoal, adquirida através de um processo de consulta ao seu "demônio interior" (como ele dizia), na tentativa de compreender a justiça das leis.

Sócrates seria então, para muitos, o primeiro grande pensador da subjetividade, o que, alias, também transparecia por seu comportamento irônico.

Ora, se este movimento de interiorização da reflexão e da valorização da subjetividade ou da personalidade começa com Sócrates, parece que ele culmina com Kant, lá pelo final do século XVll.

Kant buscava uma ética de validade universal. Sua filosofia se volta sempre, em primeiro lugar, para o homem, e se chama filosofia transcendental porque busca encontrar no homem as condições de possibilidade do conhecimento verdadeiro e do agir livre.

Kant precisa chegar a uma moral igual para todos, uma moral racional, a única possível para todo e qualquer ser racional. Se a moral é a racionalidade do sujeito, este deve agir de acordo com o dever. A formulação clássica do imperativo categórico é a seguinte, conforme o texto da Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Kant procurou deduzir da própria estrutura do sujeito humano, racional e livre, a forma de um agir necessário e universal. É moralmente necessário que todos ajam assim.

Os críticos de Kant costumam dizer que ele teria as mãos limpas, se tivesse mãos, ou seja, que desta maneira é concretamente impossível agir. A outra critica, complementar a esta, é a de que não se pode ignorar a história, as tradições éticas de um povo, etc, sem cair numa ética totalmente abstrata. Mas parece também impossível, hoje em dia, ocupar-se com a ética ignorando as idéias de Kant.

Segundo Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Maquiavel, Spinoza, Hegel, Kierkegaard, Max e Sartre, enfim, quase todos os grandes pensadores que nós, ocidentais, conhecemos, assim como, no meio deles, todos nós, que a cada dia enfrentamos problemas teóricos e práticos, éticos ou morais.

Antes de continuarmos, porém, um alerta: há muito pensador importante, principalmente hoje em dia, que considera que o estudo da ética é a região mais difícil, e aquela para qual o pensamento, reflexivo e discursivo, está atualmente menos preparado.

Ou quem sabe seria melhor simplesmente ignorar as questões éticas, cuidando apenas dos assuntos técnicos, tais como: arranjar dinheiro, aromar a vida, progredir na vida profissional, gozar o que foi possível, conseguir forças suficiente para dominar e não ser dominado.

No período da ética grega antiga entre os anos 500 a 300 a.C. aproximadamente nós encontramos o período áureo do pensamento grego. Foi um período onde surgiram muitas idéias e muitas definições e teorias que até hoje nos acompanham. Não são apenas três pensadores (Sócrates, Platão e Aristóteles) os responsáveis por esta fabulosa concentração de saber, e por esta incrível análise e reflexão sobre o agir do homem, mas talvez valha a pena esquematizar rapidamente algumas das idéias dos dois últimos, para termos uma imagem de como os problemas éticos eram formulados naqueles tempos.

Nesta época a reflexão grega neste campo surgiu como uma pesquisa sobre a natureza do bem moral, na busca de um principio absoluto da conduta. Cordão umbilical de muitas idéias éticas, tais como as duas formulações mais conhecidas: "nada em excesso" e "conhece-te a ti mesmo". O contexto em que tais idéias nasceram está ligado ao santuário de Deltos do adeus Apoio.

Entre os discípulos de Sócrates, foi Platão (427- 347 a. C). Nos Diálogos que deixou escrito, ele parte da idéia de que todos os homens buscam a felicidade. Porém a maioria das doutrinas gregas colocava, realmente, a busca da felicidade no centro das preocupações éticas.

Platão perece acreditar numa vida depois da morte e por isso prefere o ascetismo ao prazer terreno. Contando com a imortabilidade da alma, sugerida do diálogo Fédon, e que é coerente com uma preexistência da alma, ele espera a felicidade principalmente para depois da morte. A idéia do Bem. Platão descreve, de uma maneira literariamente muito sedutora, como há uma espécie de "Erros Filosófico",que atrai o homem para este exercício. Como o astrônomo contempla os astros, o filósofo contempla, através da arte da dialética, as idéias mais altas, principalmente as do Ser e do Bem. O Ser é imutável, e também o Bem. A partir deste Bem superior, o homem deve procurar descobrir uma escala de bens, que o ajudem a chegar ao absoluto.

O sábio não é, então, um cientista teórico, mas um homem virtuoso ou que busca a vida virtuosa e que assim consegue estabelecer, em sua vida, a ordem, a harmonia e o equilíbrio que todos desejam. A Dialética e Virtude devem andar juntas, pois a dialética é o caminho da contemplação das idéias e a virtude é esta adequação da vida pessoal às idéias supremas.

A prática da Virtude (areté) é por isso a coisa mais preciosa para o homem.

O ideal buscado pelo homem virtuoso é a imitação ou assimilação de Deus: aderir ao divino. No entanto o diálogo das Leis afirma que "Deus é a medida de todas as coisas".

As principais virtudes são as seguintes:

· Justiça (dike), a virtude geral, que ordena a harmoniza.

· Prudência ou sabedoria (frónesis ou Sofia) é a virtude própria da alma racional.

· Fortaleza ou valor (andréia) é a que faz com que as paixões mais nobres predominem.

• Temperança (sofrosine) é a virtude da serenidade.

Platão foi, além de grande filósofo, também um grande poeta ou literato.

Aristóteles foi muito mais um professor do que um poeta. Tendo ele alguns livros unitários.

Aristóteles colecionara depoimentos sobre a vida das pessoas e das diferentes cidades gregas.

Seus livros explicitamente sobre questões de ética são a Ética a Eudemo e a Ética a Nicômaco mais ele escreveu também uma Magna Moral e um pequeno tratado sobre as virtudes e os vícios. De acordo com a respectiva natureza estará o seu bem.

Assim, na questão platônica do Sumo Bem da lugar, em Aristóteles, à pesquisa sobre os bens em concreto para o homem.

É neste sentido que podemos dizer que a ética aristotélica é finalista e eudemonista, quer dizer marcada pelos fins que devem ser alcançados para que o homem atinja a felicidade (eudaimonia).

Segundo Aristóteles parte do fato de que o homem tem o seu ser no viver, no sentir e na razão. É esta última que caracteriza especificamente o homem.

A razão, para não se deixar ela mesma desordenar, precisa da virtude, da vida virtuosa. O bem próprio do homem é a vida teórica ou teorética, dedicada ao estudo e á contemplação, a vida da inteligência.

Para Aristóteles, o pensamento é o elemento divino no homem e o bem mais precioso. A vida humana mais feliz é a contemplativa porque imita melhor a atividade divina, mas como este ideal é demasiado elevado para a maioria, é preciso analisar também as outras coisas de que o homem carece.

Mesmo assim, a contemplação não é, aqui, um saber pelo saber, mas é antes um estudo das ciências (ciências teoréticas, como a Teologia e a matemática, ciências práticas e poéticas). Mas o objetivo do estudo mais elevado é do Neologia: o Deus.

Já na Ética a Nicômaco aparecem mais as coisas relativas e também necessárias, de modo que o autor busca igualmente as normas mais relativas. No entanto, Aristóteles insiste em que "os verdadeiros prazeres do homem são as ações conforme a virtude".

A felicidade verdadeira é conquistada pela virtude. As virtudes são então analisadas longa e detalhadamente. O ser do homem é uma substancia composta: corpo material e alma espiritual.

Como o corpo é sujeito às paixões, a alma deve desenvolver hábitos bons: Uma vez que a virtude é sempre uma força adquirida, um hábito, que não brota espontaneamente da natureza. O homem precisa converte suas melhores disposições naturais em hábitos, de acordo com a razão: virtudes intelectuais.

Vejamos uma das tradições possíveis da definição de virtude: "é um hábito adquirido, voluntário, deliberado, que consiste no justo meio em relação a nós, tal como o determinaria o bom juízo de um varão prudente e sensato, julgando conforme a reta razão e a experiência".

Porém a ética e religião entre os gregos antigos, a discussão sobre o mundo e a harmonia cósmica produziu doutrinas práticas. Viver de acordo com a natureza não era uma questão exclusivamente ecológica, mas também moral, isto é, Aristóteles considerava que devia haver uma lei moral no mundo, que permitisse ao homem viver e se realizar como homem, isto é, de acordo com a sua natureza.

Segundo Sócrates, com sua preocupação moral, expressa no lema "conhecer-te a ti mesmo" (lema que não era teórico, mas prático, pois não buscava um conhecimento puro e sim uma sabedoria de vida).

A religião grega, como muitas outras religiões antigas, era ainda bastante naturalista. Com a religião judaica, a questão se modifica um tanto. O Deus de Abrão, Isaac e Jacó não se identificam com as forças da natureza, estando assim acima de tudo o que há de natural. Para que isto seja praticamente viável, torna-se necessário conhecer a vontade deste Deus pessoal, e a filosofia sente a necessidade de uma ajuda fundamental fora dela: os homens procuram à revelação de' Deus. O homem busca ser santo, como Deus no céu é santo.

Em relação à religião de Abrão e Moisés, expressa nos livros Antigo Testamento, os ensinamentos de Jesus Cristo são certa continuação e certo aperfeiçoamento. Deus nos amou primeiro, por isso, na relação como os irmãos (que são agora todos os homens, resumidos nas categorias do próximo), cada um deve procurar amar primeiro. A meta da vida moral foi colocada mais alta, numa santidade, sinônimo de um amor perfeito, e que deveria ser buscada, mesmo que fosse inatingível. A própria religião serviu de grande estímulo para o filósofo e moralistas, inventando novas questões, como o do relacionamento entre a natureza e a liberdade, ou a da fraternidade universal confrontada a uma solidariedade mais restrita, grupal ou nacional, ou a da valorização e relativização do prazer, do egoísmo, do sofrimento, etc.

Certos religiosos criticam o pan-sexualismo de um Freud, por exemplo, muitas vezes se esquecem de que eles mesmos, em sua moral, fizeram tudo girar ao redor desta questão, e geralmente numa perspectiva sectária que, mais do que cristã eram platônica no sentido da palavra.

Na medida em que se convencionou chamar a Idade Média européia o período cristão do Ocidente, o pensamento ético que conhecemos está, portanto, todo ele ligado à religião, à interpretação da Bíblia e à teologia. Pensadores como Hegel Schelling, Kierkegaard e Gabriel Mareei, ou mesmo Martin Buber, discutem apenas maneira de relacionar as doutrinas religiosas com a reflexão filosófica,

Sendo o filósofo alemão Ludwing Feuerbach (1804- 1872), que tentou traduzir a verdade da religião, especialmente a cristã, numa antropologia filosófica que estivesse ao alcance de todos os homens instituídos. Marx desenvolve, então, uma nova visão do mundo e da história humana, que, num certo sentido, deveria substituir a religião.

Não é de espantar, por isso, que pensadores cristãos atuais busquem recuperar nos textos da tradição marxista muito pontos da tradição ética cristã, por mais que isto pareça paradoxal.

Ao lado desta tendência moderna que busca formas de unir uma ética religiosa e uma reflexão filosófica, desenvolvem-se no mundo moderno e contemporâneo práticas e teorias que ignoram as contribuições da religião. A concepção determinista ignora, por princípios, a liberdade humana como sendo uma ilusão. E a concepção racionalista procura deduzir da "natureza humana" (numa perspectiva naturalista, fiscalista ou materialista, ou numa perspectiva transcendental Kantiana, que define a natureza humana como liberdade, e a consciência humana como "legisladora universal"). Na concepção Kantiana são formas de procedimentos práticos que possam ser universalizáveis. /'

O "formalismo Kantiano" não deixa deter os seus encantos, pois ele procura basear-se quase que exclusivamente nas leis do pensamento e da vontade, dando assim critérios práticos de serventia inegável. Se não posso querer a universalização da doutrina, não posso aceitar a tortura também aqui e agora.

Há outras tendências bastante difundidas, como a do uti/itarismo. Esta tendência aparece em muitas formulações que podem ser definidas como pragmatismo.

Próximo a este pragmatismo, há duas outras tendências atuais importantes, para um estudo da ética, e que até certo ponto se completam. Há uma prática, especialmente desenvolvida nos países de capitalismo mais avançados, que busca a utilidade e a vantagem particular: bom é o que ajuda o meu progresso (econômico, princiPalm,-te) e o meu sucesso pessoal no mundo (carreira, amizades, úteis, etc),

Nos ideais éticos agirem moralmente significaria agir de acordo com a própria consciência.

Para alguns gregos, o ideal ético estava ou na busca teórica e prática da idéia do Bem, e já para outros gregos, o ideal ético estava no viver de acordo com a natureza, em harmonia cósmica. Viver de acordo com a natureza seria o mesmo que viver de acordo com as leis que Deus nos deu através da natureza. No cristianismo, os ideais éticos se identificam com os religiosos. O homem viveria para conhecer, amar e servir a Deus, diretamente em seus irmãos.

Com o Renascimento e o lIuminismo, ou seja, aproximadamente entre os séculos XV e XVIII, a burguesia que começava a crescer e a impor-se, em busca de uma hegemonia, acentuou outros aspectos da ética. Kant identificou bastante, como temos visto o ideal ético com o ideal da autonomia individual.

Se Kant e a Revolução Francesa acentuaram de maneira talvez demasiada abstrata a liberdade, o ideal ético para Hegel estava numa vida livre dentro de um Estado livre. A profunda perspectiva política de Platão e Aristóteles transparece de novo, portanto; em Hegel. Mas parece que a realidade histórica não acompanhou muitas de suas teorias.

No século XX, os pensadores da existência, em suas posições muito diversas, insistiram todos sobre a liberdade como um ideal ético, em termos que privilegiavam o aspecto pessoal ou personalista da ética: autenticidade, opção, resolutiva, cuidado, etc.

Já o pensamento social e dialético buscou como ideal ético, na medida em que aqui ainda se usa esta expressão, a idéia de uma visa social mais justa, com a superação das injustiças econômicas mais gritantes.

Também não se entende muito bem que uma geração deva ser sacrificada hoje pelas gerações futuras, e há quem diga que a justiça futura não compensará jamais a injustiça atual.

Não há como negar que exatamente a maioria dos países ricos atuais se caracteriza por uma ética que me muitos casos lembram à busca grega do prazer, porém, nem sempre com moderação,

A reflexão ético-social do século XX trouxe, além disso, uma outra observação importante: na massificação atual, a maioria hoje talvez já não se comporte mais eticamente, pois não vive imoral, mas amoralmente.

Buscando uma maior reflexão falar de ética significa falar da liberdade. Mas não tem sentido falar de norma ou de responsabilidade se a gente não parte da suposição de que o homem é realmente livre, ou pode sê-Io.

Também não tem sentido falar de responsabilidade, palavra que deriva de resposta se o condicionamento ou o determinismo é tão completo que a resposta. Aparece como mecânica ou automática.

Todas as doutrinas éticas se articulam entre dois extremos que tornam a ética impossível.

O determinismo pode aparecer igualmente com a doutrina de um Deus dominador. Tudo o que fazemos é decidido por ele, de modo que não temos liberdade.

Porém o determinado pode aparecer também como uma doutrina de um materialismo escrito: a natureza, ou a lei natural rege todos os nossos altos. O homem realmente não teria mais liberdade. Nesta situação a própria ética não teria mais sentido.

Ou teria, no Máximo, o mandamento ético de revolucionar tal sociedade.

O extremo oposto ao do determinismo, porém, nega igualmente à ética. Os filósofos estóicos, gregos ou romanos, pensavam que "o sábio é livre sempre, mesmo que esteja aprisionado e acorrentado". Ora, esta liberdade se resumira à possibilidade de pensar o que quisesse. O pensamento estóico, que afirma apenas esta liberdade abstrata, penetrou no cristianismo, que assim também por este exagero, deixando que a liberdade real se resuma a algo de puramente interior.

Também contra esses pensadores vale uma frase famosa de Adorno (1903­1969), pensador da chamada "Escola de Frankfurt": "Liberdade da economia nada mais é do que a liberdade econômica", ou mais simplesmente: só não depende do dinheiro quem o tem de sobra.

Por insistir em investigar uma liberdade que fosse realmente humana, nem mais e nem menos, Schelling aí até antecipou criticas a escritos posteriores de Hegel. Na perspectiva de SChelling, teríamos de dizer que a liberdade que Hegel expõe é tão infinita e absoluta, que já não corresponde mais a realidade humana, considerando-se que o homem é um espírito condicionado e finito.

Hegel procura expor uma história filosófica da liberdade.

E essa historia prossegue, mostrando como o homem e a humanidade se constrói na busca de uma liberdade sempre mais real.

O ponto máximo desta tendência trazida pelo cristianismo estaria no pensamento moral de Kant, que acentua tanto a liberdade mora, que até deixa na sombra o aspecto exterior da legalidade, isto é, da organização em leis da sociedade. Num Estado de direito, o exterior, ou seja, as leis e as organizações sociais garantem a liberdade, ou melhor, as liberdades individuais e o bem comum. O que faltou, portanto, foi à percepção de que a liberdade precisava "organiza-se na sociedade", "dar-se existência", ou organizar a sociedade de acordo com a sua idéia.

Hegel atingiu, com seu pensamento, um estágio que não pode mais ser ignorado, mesmo que critiquem alguns aspectos de sua teoria.

O Estado seria, de fato, um instrumento a mais de poder para uma das classes em conflito na sociedade burguesa.

No campo da crítica a Hegel, há os pensadores da existência, como Kierkegaard, no século passado, e Jaspers, Heidegger, Merleau- Ponty e Satre, neste século. Eles insistem de diferentes maneiras, sobre a crítica de que Hegel teria esquecido a dimensão propriamente humana e individual da liberdade.

Dito de outra maneira, esta crítica soaria assim: quando um processo supera individual, esvazia-se a dimensão ética.

A ética se preocupa com as formas humanas.

K. Marx (1818- 1883) interpretou a história da humanidade como a história de uma luta constante com a natureza. A ação humana se define então com trabalho, como técnica. O homem ao trabalhar, ele se faz trabalhador, se especializa, se adapta aos segredos do material, se produz.

Além da atividade teórica, o homem teria não só uma atividade técnica, representada pelo trabalho produtivo, mas também uma atividade propriamente prática (no sentido grego, e, portanto ética), representada pelo amor, por ideais de comunicação e por valores como à fraternidade entre os homens.

Segundo Kierkegaard o mesmo percebeu que para os gregos o pecado seria apenas ignorância. Para Sócrates e Plantão, diz ele, o problema ético era, no fundo, um problema de teoria: a única coisa importante para o homem seria "conhecer o bem", porque daí se segueria necessariamente um "agir bem".

Perante o comportamento moral: o bem e o mal Kierkegaard diziam, em seu livro O Conceito de Angústia, que a ética grega era, no fundo, apenas uma estética. A norma grega de buscar o belo e bom se resj..lmiria, no fundo, à busca da beleza, do prazer, de tudo o que era agradável.

A ética medieval, pelo menos na cristandade, era, no fundo, um comportamento religioso, e não ético, no sentido restrito.

Na Idade Média existiram paralelamente vários códigos de éticas, como o dos cavaleiros e príncipes, o dos bispos locais, o da Igreja de Roma e o dos seguidores de Maomé.

A ética desenvolve a preocupação com a autonomia moral do individuo. O individuo procura agir de acordo com a sua razão natural:- Os homens querem fundamentar o seu agir na natureza. Assim temos Rousseau (1712- 1778), com o ideal de uma vida melhor graças ao retorno às condições naturais, anteriores à civilização.

E Kant, que busca descobrir em cada homem (e neste sentido é antiaristocrata e burguês) uma natureza fundamentalmente igual, porém natureza livre.

O agir em Kant é bem diferente doa ideais aparentemente paralelos gregos, dos medievais e de um Rousseau. Sendo o homem um ser natural, mas naturalmente livre, isto é, destinado pela natureza à liberdade, ele deve desenvolver esta liberdade através da mediação de sua capacidade racional.

Cada individuo, ao agir de acordo com sua consciência ilustrada, educada, da melhor maneira possível, ao agir refletidamente como legislador universal, age de uma maneira universal, embora subjetiva, pois as decisões que toma são aquelas que deveriam ser válidos e vigentes para todos os indivíduos conscientes, racionais e livres.

Para Hegel o agir ético do homem precisa concretizar-se dentro de uma determinada sociedade política e de um momento histórico variável, dentro dos qual a liberdade se daria uma existência concreta, organizando-se num Estado.

Todo agir é político, inclusive e principalmente o agir ético.

Marx relaciona todo comportamento humano à economia, e acentuando as relações econômicas que sempre interferem sobre o agir éticos, por influência do pensamento de esquerda as reflexões éticas passaram a analisar os discursos com vistas a uma crítica da ideologia.

A crítica da ideologia busca descobrir, por trás dos discursos sobre as ações humanas, individuais ou grupais, os (verdadeiros) interesses reais, materiais, econômicos ou de dominação política,

Agir eticamente é agir de acordo com o bem. A maneira como se definirá o que seja este bem, é um segundo problema, mas a opção entre o bem e o mel, distinção levantada já há alguns milênio, parece continuar válida.

Já na ética de hoje a mesma foi reduzida a algo de privado. O lema máximo da ética é o bem comum.

Kant coloca a consciência moral do individuo no centro de toda preocupação moral.

Hegel insistiu numa outra esfera, que chamou de esfera da eticidade ou da vida ética. Hegel não teme afirmar que "o Estado é a realidade efetiva da idéia ética".

No entanto os grandes problemas éticos se encontram na (família, sociedade civil e Estado).

· Na família, hoje se colocam de maneira muito aguda as questões das exigências éticas do amor.

Segundo Paulo Freire a libertação não se dá pela simples troca de papéis: a libertação da mulher liberta igualmente o homem.

· Em relação à sociedade civil o bem e o mal não existem apenas nas consciências individuais, mas também nas próprias estruturas institucionalizadas de um sistema.

· Em relação ao Estado os problemas éticos são muito ricos e complexos.

A liberdade do individuo só se completa como liberdade do cidadão de um Estado livre e de direito. "Saber é poder", dizia o grande iluminista Francis Bacon. Mas pensadores atuais, como Adorno e Horkheimer, mostraram que existe uma maldosa dialética neste lIuminismo, nos ajudando a assumir em nossa vida de maneira mais ética, e, neste sentido, mais livre e mais humano.

CONCLUSÃO

Refletir sobre a ética é contribuir para aumentar a reflexão sobre a ação humana, tornando-nos mais sensíveis e mais sensatos, porque ela nos aproxima da realidade e nos torna mais conscientes das ações que praticamos em qualquer espaço da nossa vida.

Sócrates, Platão e Aristóteles foram alguns dentre os importantes filósofos gregos que queriam dar respostas sobre a melhor forma de o homem viver e morrer. Passaram à vida tentado responder o que é a felicidade e qual a melhor maneira de alcançá-Ia.

REFERÊNCIA BILIOGRÁFICA

* VALLS, Álvaro L. M. O. O que é ética -9º ed. São Paulo: Brasilense, 1994. (coleção primeiros passos: 177).


Autor: Creusa Maria Oliveira Alves Alves