BREVE HISTÓRIA DA LEITURA E DA ESCRITA



BREVE HISTÓRIA DA LEITURA E DA ESCRITA
Marinho Celestino de Souza Filho
Geremias Dourado da Cunha,


Resumo: Neste breve ensaio, pretendemos construir um breve histórico da leitura e da escrita, tentando mostrar ainda as evoluções dessas duas atividades no transcorrer do tempo e elencando através da pesquisa bibliográfica a importância da leitura e da escrita desde o descobrimento do Brasil até os dias atuais.
Palavras-Chave: Leitura. Escola. Histórico. Concepções de Leitura. Importância da Leitura e da Escrita.
Introdução
Não devemos esquecer-nos das nossas raízes históricas, quando pensamos no ensino-aprendizagem da Leitura e da Escritura em nosso país e da herança a nós legada no que tange à formação da nossa cultura.
Por isso, no Brasil-Colônia, o exercício do ato de ler, era permitido a poucos: aos portugueses que aqui aportaram, aos senhores de engenho e a seus filhos, ou às pessoas ligadas administração da colônia; aos jesuítas e ao clero. Quanto às outras pessoas que moravam nessa pátria, esse direito não lhes era garantido, ou seja, o direito de ler e de escrever, dentre outros.
Privilegiava-se, assim, uma suposta raça superior, ou melhor, os “descobridores e benfeitores”, por isso o que servia de manual de leitura e de escrita eram textos autobiografados, relatos de viajantes, textos escritos manualmente como algumas cartas familiares e alguns documentos feitos em cartório: certidão de casamento, de nascimento e alguns títulos de propriedades.
Sendo assim, havia pouco material de leitura e escrita naquela época e ainda esse material era destinado a poucos que gozavam de uma excelente posição social, como os portugueses que aqui chegavam e os seus parentes, aos escravos e aos empregados não lhes eram garantidos o direito de ler e escrever.
1. Concepções de linguagem e de leitura
Segundo Koch (1997), foram construídas no decorrer da história humana três concepções distintas de linguagem, a saber: 1. como representação (“espelho”) do mundo e do pensamento; 2. como instrumento (“ferramenta”) de comunicação; 3. como forma (“lugar”) de ação ou interação.
Dentre as três concepções acima mencionadas, a que mais interessa para este trabalho é a terceira, apesar de a primeira e a segunda serem muito defendidas, atualmente.
A primeira afirma que a linguagem serviria para representar o mundo e a realidade que nos cerca e ainda aquilo que pensamos sobre ela, dessa forma, a linguagem seria uma espécie de “espelho” por que perpassam nossos pensamentos e os seres vivos ou não os quais nos rodeiam.
A segunda mostra-nos que a linguagem seria centrada apenas na comunicação.A linguagem funcionaria somente para transmitir mensagens, pressupondo, assim, um emissor e um receptor ideal. Apesar de o processo de comunicação e a linguagem não serem tão simples assim como mostra a Teoria da Comunicação, porque as pessoas ao falarem não só comunicam o que estão falando, como também agem e reagem através da linguagem, desse modo, podem interromper quem fala e muitas vezes também são interrompidas, além de poderem produzir pausas, hesitações e ironias.
Além disso, há de se considerar o lugar de onde as pessoas falam, a imagem que elas têm umas das outras, a posição social que elas ocupam e ainda, o que dizem e até o que não dizem dizendo, ou melhor, a questão dos não-ditos. Observando, também, principalmente; o contexto sócio-histórico e ideológico no qual esses interlocutores estão inseridos.
Na terceira concepção, percebemos que a linguagem seria fruto da interação entre enunciador/enunciatário, falante/ouvinte, autor/leitor, prestando-se não só como representação do pensamento, mas também como processo de comunicação, isto é, uma peça fundamental para a interação entre os seres humanos e, neste caso, a linguagem sofreria o que Travaglia (1996) chama de “exterioridade” sócio-histórica e ideológica, ou melhor, a linguagem seria influenciada pelo contexto lingüístico e extralingüístico, pela ideologia e pela História, não só a oficial, mas também a história de cada indivíduo.
Concepções de leitura

Sabemos que, no transcorrer da História da humanidade, temos algumas concepções de leitura, no entanto, esse trabalho pretende mostrar apenas uma concepção, a leitura segundo uma perspectiva discursiva, dessa forma, a leitura deve ser vista como atribuição de sentidos, levando em consideração alguns fatos:
 enxergar a leitura como algo que é produzido, sendo assim, possível de ser trabalhada e não só ensinada;
 a leitura tanto quanto a escrita faz parte do processo de construção, instauração dos sentidos;
 o sujeito leitor tem suas individualidades e sua história;
 tanto o sujeito quanto os sentidos são atravessados pela história e pela ideologia;
 há múltiplos e variados modos de leitura;
 a nossa vida de leitores, escolar, acadêmica está quase sempre relacionada aos modos e efeitos de leitura de cada época e segmento social;
 o modo de leitura: organiza a relação dos leitores com o texto, por isso, vejamos como cada modo de leitura organiza essa relação:
1. relação do texto com o autor: o que o autor quis dizer?
2. Relação do texto com outros textos: em que este texto se aproxima ou se distancia de tal texto?
3. Relação do texto com sua referência; o que texto tal diz de x, y ou z?
4. Relação do texto com o leitor: o que você entendeu desse texto? Como entendeu?
5. relação do texto com a pessoa que solicita a leitura (se para o professor) o que significa mais nesse texto para o professor x, you z ou ainda o que significa w para o professor x, y ou z?
Desse modo, a concepção de leitura sob uma perspectiva discursiva, certamente, deverá ser a mais adequada para estudarmos seriamente uma língua, no nosso caso, a Língua Portuguesa.
2. Breve histórico da leitura

Entre nós a história da Leitura se inicia com muita discriminação, só aos senhores era assegurado esse direito e aos outros era usurpado, em nome da “superioridade da raça” como descobridores e benfeitores, permanecendo assim por longo período.
Até meados do século XIX , praticamente não existiam livros. O que serviam como manuais de leitura nas escolas eram textos autobiografados, relatos de viajantes, textos escritos manualmente como cartas, documentos de cartório, e a primeira constituição do império de 1.827, especifica sobre a instrução pública, o código criminal e a bíblia também serviam como manuais de leitura nas raras escolas que existiam.
As escolas primárias praticamente não existiam, pois eram excluídos os escravos e, à mulher era dada um tipo de educação conhecida apenas por educação geral, para cumprirem as atividades domésticas.
Durante a colonização, as práticas escolares eram feitas nos engenhos e nos núcleos das fazendas por capelões, padres e mestres-escolas que eram contratados com este fim. Essa afirmativa é confirmada por Bastos (1982, p.92):

De 1800 a 1807 o Brasil mudou pouco em vários setores e, no ensino, nós continuávamos a trabalhar com a gramática de Reis Lobato, imposta por D. José I , rei de Portugal, que a exigiu não só na metrópole , mas em todas as suas colônias. A partir de 1808, começaram mudanças que se tornaram continuas até praticamente o fim do século. Nesse ano, a coroa portuguesa mudou-se para o Brasil, para fugir da perseguição dos franceses comandada por Napoleão Bonaparte. Tal fato aparentemente comum trouxe modificações para a língua falada no Brasil e, também, trouxe à tona o significado de nacionalidade e de independência.

Com a vinda da família real para o Brasil e a abertura dos portos, ocorreram transformações significativas nas relações sociais econômicas e culturais, surgindo a necessidade da instrução para a capacitação da força de trabalho, pois o mundo passava por transformações .
Na Europa as mudanças sociais e políticas, levaram a burguesia a alcançar o poder na França, na Áustria, Rússia, Prússia e, quase ao mesmo tempo, aconteceu a revolução Industrial da Inglaterra. O mundo inteiro passava por profundas mudanças, tanto na sociedade quanto nas idéias. Os homens mudaram seu ponto de vista sobre eles mesmos, tornaram-se mais fantasiosos , subjetivistas, individualistas e narcisistas.
O Brasil não ficou imune às essas transformações, embora tenha sido mais lentas , o importante é que a sociedade mudou, e a aristocracia e o clero passaram a exercer cada vez menor influencia sobre o povo.


3. Breve histórico da escrita

A escrita inicia-se, como sabemos, na Suméria por volta de 3.100 a.C. Esse país existia onde hoje se localiza o Irã e o Iraque, numa região chamada Mesopotâmia, que significa entre rios; rios Tigres e Eufrates.
Nesta região, a floresta era escassa e havia muita água. Os recursos naturais dessa região foram muito bem aproveitados, eles faziam tabletes de barro parecidos com uma almofada para escrever. Com o passar do tempo foram aperfeiçoadas as técnicas e surgiram outras fontes que também foram muito exploradas como a madeira, o metal, as pedras dos monumentos, as peles de animais que foram usadas até a descoberta do papiro, que graças ao desenvolvimento da tecnologia, hoje temos um papel muito sofisticado.
Sendo assim, a concepção de escrita espalhou-se pelo planeta, aparecendo, por isso, variações do sistema da escrita. Para melhor representar a escrita cada nação criava os seus próprios símbolos gráficos e os seus próprios usos para representarem suas línguas, dessa maneira, surgem sistemas variados de escrita.
Alguns estudiosos acham que a escrita também tenha surgido de forma independente em outras partes do mundo como na China, por volta de 1.300 a. C., na América Central, entre os Maias, cuja história se conhece muito pouco e grande parte da escrita ainda não foi decifrada, e no Egito por volta de 3.000 a. C. Os demais sistemas de escritas são derivados destes quatro, sobretudo do Sumérico.
A escrita foi utilizada exclusivamente para fins contábeis, desse modo, as primeiras manifestações escritas, mesclavam números e desenhos de animais e objetos que serviam para contar alguma história, como as inscrições rupestres feitas em várias cavernas.
Por isso, a escrita difere do desenho. Quando um desenho deixa de representar um objeto do mundo e passa a representar um a palavra de uma língua, este deixa de ser um simples desenho e passa a representar à escrita.
Sabemos que os sistemas de escritas começaram com caracteres na forma de desenhos de objetos que representavam palavras, mas esse sistema logo se esgotou diante da necessidade das pessoas se expressarem; como na hora de escrever o nome de alguém, não bastava mais desenhar um homem ou uma mulher; se alguém se chamasse Pena, bastava acrescentar ao desenho do homem uma pena, mas se alguém se chamasse João, que desenho poderia ser feito? Diante das necessidades de representação gráfica humanas, os sistemas de escrita começaram a representar os sons das palavras e não mais as idéias. A princípio parecia fácil, porque para escrever irmão, traçava-se o desenho de duas pernas que significavam ir e o desenho de uma mão que completava a mensagem, mas, apareceu situações diferentes que necessitavam de esclarecimento.
Segundo Cagliari (2004), a história da escrita vista em sua plenitude, sem seguir certa teoria de evolução ao longo do tempo, caracterizava-se em três fases distintas: a pictórica a ideográfica e a alfabética.
A fase pictográfica se distingue da escrita, porque era expressa através de desenhos ou pictogramas, os quais apareciam em inscrições antigas. Por isso, encontramos formas de escrita muito mais sofisticadas nos cantos de Ojibwa da América do Norte, na escrita Asteca, principalmente, no catecismo, e atualmente nas histórias em quadrinhos.
Os pictogramas estão associados a uma imagem do que se quer representar e não ao som, dessa forma, consistem em representações gráficas menos elaboradas dos objetos, cuja função seria representar a realidade.
A fase ideográfica caracteriza-se pela escrita representada através de desenhos especiais chamados ideogramas.
Dentre as principais escritas ideográficas, as mais importantes são a egípcia, conhecida também com o nome de hieróglifo, a escrita mesopotâmia, da suméria, as escritas do Mar Egeu; por exemplo; a cretense e a chinesa que provêm da japonesa.
Por isso, o uso de letras vem caracterizar a fase alfabética que se originou dos ideogramas e perderam seus valores ideográficos, assumindo nova função na escrita; a função fonográfica. O ideograma perde o valor pictórico e passa a ser uma representação fonética. Dentre os mais importantes estão o indiano e o greco-latino.
Segundo Cagliari (1995) o sistema alfabético passou por inúmeras transformações até se tornar o que conhecemos hoje.
Nesse sentido, os fenícios aproveitaram os sinais da escrita egípcia e realizaram um inventário de caracteres, cada inventário descrevia um som consonantal; as vogais não tinham importância, cada palavra era facilmente reconhecida somente pelas consoantes, por isso, até hoje, essas características permanecem no sistema de escrita do árabe e do hebraico.
Já os gregos usaram o sistema de escrita dos fenícios e fizeram uma adaptação, a ele, adicionaram as vogais, relevantes na formação e no uso do reconhecimento das palavras. Nesse aspecto, aos gregos devemos o privilégio da invenção da escrita alfabética, contendo; nesse sistema, vogais e consoantes. Dessa forma, a escrita alfabética possui menor número de símbolos e, por isso, favorece maior possibilidade combinatória de caracteres gráficos..
Nesse contexto, a escrita grega também foi incorporada e adaptada pelos romanos, sofrendo variações, dessa forma, formou o sistema greco-latino, originando, assim, o nosso alfabeto.
Dessa forma, o sistema de escrita apresenta algumas formalizações: escrevemos de cima para baixo e da esquerda para a direita, embora isto seja muito comum entre vários sistemas de escrita, nem todos são assim, como por exemplo: os chineses e os japoneses escrevem da direita para esquerda em colunas verticais, os árabes escrevem da direita para a esquerda, em linhas de cima para baixo.
Assim sendo, o grego antigo tinha um sistema de escrita chamado brustrofédon. Neste sistema, começava-se a escrever numa linha em cima à direita e ia-se até o final dessa linha, todavia, na linha seguinte; invertia-se a direção das letras. Dessa forma, a terceira linha era semelhante a primeira e, assim por diante.
4. Considerações Finais
Procuramos, nesse trabalho, mostrar um breve histórico da leitura e da escrita.
Nesse aspecto, procuramos ainda mostrar a origem da escrita de alguns povos antigos: gregos, sumérios, chineses, japoneses, mas também tentamos comparar o sistema de escrita desses povos na antigüidade com o sistema de escrita atual; elencando, principalmente, as semelhanças, mas também não nos esquecemos de mostrar algumas das diferenças existentes entre esses sistemas.
Dessa forma, procuramos tratar também da origem da leitura, traçando um breve histórico da leitura em Portugal e depois mostrando como era praticada e quem poderia praticá-la no Brasil.
Sendo assim, acreditamos que a relevância desse trabalho está justamente em tentar compreender como a leitura e a escrita surgiram e ainda como eram praticadas, ou seja, compreendendo a origem de tão relevantes e complexas atividades, poderemos, dessa forma, entender melhor o funcionamento delas, e, compreendendo-as melhor, certamente, a nossa prática de leitura e de escrita melhorará, assim, poderemos trabalhá-las com mais segurança, com mais eficiência, contribuindo, dessa maneira, para a formação de cidadãos críticos e de excelentes leitores.

6. Referências

ABUD, Maria José Milharezi. O ensino da leitura e da escrita na fase inicial da escolarização. São Paulo, Epu: 1987.
BASTOS, Sílvia Aparecida. A leitura e a escrita em pleno Brasil Colonial. São Paulo, Brasiliense: 1982.
CARDOSO, Beatriz & EDNIR, Madza. Ler e Escrever, Muito prazer! 2ed. São Paulo, Ática: 2001.
CAGLIARI, Luis Carlos. Alfabetização e Lingüística. 6 ed. São Paulo, Scipione: 1995.
____________________. Alfabetizando sem o bá-bé-bi-bó-bu. São Paulo, Scipione: 2004.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. 29 ed. São Paulo, Cortez: 1994.
FOUCAMBERT, Jean. A criança, o professor e a leitura. (Trad.): Marileine Cohen Carlos Rosa Mendes. Porto Alegre, Artes Médicas: 1997.
HARTIER, Anne-Marie et al. Ler e Escrever: entrando no mundo da escrita. (Trad.): Carla Valduga. Porto Alegre, Artes Médicas: 1996.
KATO, Mary. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística. 7ed. São Paulo, Ática: 1985.
KOCH, Ingedore Villaça. A inter-ação pela linguagem. 3ed. São Paulo, Contexto; 1997.
LERNER Delia. Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário. (Trad.): Ernani Rosa – Porto Alegre, Artes Médicas: 2002.
NETO, Antônio Gil. A produção de textos na escola. 4 ed. Loyola, São Paulo: 1986.
RIBEIRO, Lourdes Eustáquio Pinto. Para Casa ou Para Sala? São Paulo, Didática Paulista: 1999.
SILVA, Ezequiel Theodoro da. Leitura e Realidade brasileira. 3 ed. Porto Alegre, Mercado Aberto: 1986.
_________________________. O ato de Ler: fundamentos psicológicos para uma nova pedagogia da leitura. 8 ed. São Paulo, Cortez: 2000.






















REFERENCIA PESSOAL DO AUTOR²


GEREMIAS DOURADO DA CUNHA é acadêmico de Ciências Biológicas, desde 2004/2 pelo Centro Universitário Luterano de Ji-Paraná-RO.
Participou do 2º SALÃO DE INICIAÇÃO CIENTIFICA 2004/2, com o trabalho, SER BIOLOGO: VOCAÇÃO OU NECESSIDADE? UM ESTUDO DE CASO NO CEULJI/ULBRA, e publicou o mesmo na revista eletrônica CIENCIA & CONCIENCIA no mesmo ano.
Participou do 4º SALÃO DE INICIAÇÃO CIENTIFICA 2006/2, com o artigo, CASOS DE ASCARIDIASE (Ascaris Lumbricoides), um enfoque na população do bairro Casa Preta, no município de Ji-Paraná/RO/BR.
Participou do 5º SALÃO DE INICIAÇÃO CIENTIFICA 2007/2, CEULJI/ULBRA, com o artigo ETOLOGIA DA JAÇANÃ (Jacana jacana), UM ESTUDO REALIZADO NA LAGOA DOS BURITÍS, PARQUE ECOLOGICO DE JI-PARANÁ/RO/BR.
Ultima publicação, BREVE HISTÓRIA DA LEITURA E DA ESCRITA, em parceria com o profesor Mestre Marinho Celestino Filho, da Universidade Panamericana de Ji-Paraná.


Geremias Dourado da Cunha.
Autor: GEREMIAS DOURADO DA CUNHA