Livro didático: uma análise



Livro didático: uma análise

 

“As coisas estão no mundo, eu é que tenho que aprender”

Paulinho da Viola

 

 

O presente trabalho tem por objetivo analisar o tratamento metodológico dado aos textos literários no livro didático para o ensino médio “Português Linguagens”, 4ª. Edição, dos autores William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, da Atual Editora. Tendo em vista analisar, neste pesquisa, o roteiro de trabalho proposto pelo autor na exploração do texto literário e no estudo de Literatura.

Observaremos a escolha dos textos, os exercícios propostos, se estes são concernentes e se exploram, por exemplo, a ludicidade, ou seja, os efeitos produzidos pela leitura do texto literário.

Para o ensino médio, o conteúdo é dividido em três manuais, cada um se divide em quatro unidades, contendo cada uma capítulos sobre Gramática com o nome de Língua: uso e reflexão, Literatura e Produção Textual, o que torna o livro muito fragmentado. Esta divisão obedece às grades curriculares da maioria das escolas secundárias. Por exemplo o capítulo em se situa o estudo do conto é o da produção textual. Por que não Literatura e Produção Textual, se tivermos dois professores distintos para cada disciplina poderemos ter uma fragmentação ainda maior do estudo.

Os autores propõem, na introdução, que o estudo dos textos literários dialoguem com outras linguagens e manifestações artísticas, porém a cada página virada uma infinidade de figuras saltam aos olhos do estudante, criando um ambiente poluído, impróprio para um bom entendimento e cumprindo sem efetividade o papel a que se propôs.

Não retiro o valor dos estudos interdisciplinares, porém com tanta e diversificada informação, o foco no texto literário se dissipa e o manual não contemplará, ou o fará de maneira pouco eficiente e o estudante, com tanta imagem colorida em sua frente, as privilegiaria em detrimento dos textos literários. Os autores de livros didáticos, em geral, têm que perceber que produzem um livro voltado para a educação de jovens, que os iniciam nos estudos literários, portanto sua função é fomentar e aprimorar nestes jovens o hábito da leitura.

Com isso não se deve perder de vista o texto em si, estimular, primeiro, o contato do adolescente com a poesia, a crônica, o conto etc., deixá-lo sentir, proporcionar a eles o prazer da leitura, a fruição do texto.

 Pretendendo-se destacar a importância da dimensão histórico-social da linguagem, privilegiando os diálogos entre: autor / leitor, texto / contexto. O Livro Didático em análise, na metodologia utilizada para a exploração do texto literário, utiliza-se de concepções redutoras de texto e de leitura e abordagens superficiais, não contribuindo, assim, de forma adequada, para a formação de uma leitor crítico e capaz de adentrar as especificidades artísticas e humanizadoras do texto literário.

Há criatividade na exposição de textos e nas propostas de trabalho, estabelecendo-se relações entre a literatura e as demais modalidades artísticas, faltando, porém, uma contraposição entre a natureza de cada qual e propostas que façam com que sejam analisadas suas semelhanças e diferenças, podendo-se chegar, assim, a discussões sobre a especificidade do literário.

No livro destinado ao primeiro ano do ensino médio, no primeiro capítulo destinado às variações lingüísticas, temos a sessão Na Construção do Texto, onde os autores colocam um anúncio retirado de uma revista semanal, que consiste basicamente em ser uma carta enviada ao Papai Noel. Transcreverei aqui a carta e algumas perguntas proposta pelos autores:

“Olá, Papai Noel :)

Em primeiro lugar já está mais do que na hora de vc ter um e-mail. Não existe nada mais antigo que mandar uma carta. Mas, vamos lá: estou precisando de um upgrade no meu home-office. Por isso, neste Natal eu quero um OZ gradiente. Talvez uma pessoa que nem website tem não saiba o que é isso. OZ é DVD, TV, CD, MP3, FM, Internet e computador ao mesmo tempo. Na verdade o senhor devia me agradecer. Imagine se eu tivesse pedido tudo isso separado, o peso que seria no seu saco. Tks,_____________________________.”

 

1- O anúncio tem por finalidade, evidentemente, vender um determinado tipo de produto e, para isso, lança mão de um conjunto de estratégias. Responda:

a) O anúncio apresenta uma estrutura semelhante à de um tipo de texto muito usado em correspondências. Qual é esse tipo de texto?

b) Quem, supostamente, é o autor desse texto: criança, adolescente ou adulto? Por quê?

c) Sabendo-se que o anúncio foi publicado no mês de dezembro e levando-se em conta o destinatário da carta, quem supostamente são os interlocutores do anúncio?

d) Na sua opinião, as estratégias utilizadas pelo anunciante são eficientes para que o anúncio atinja seu objetivo? Por quê?

A primeira pergunta merece destaque, primeiro, vejamos o livro que é destinado a alunos do primeiro ano do ensino médio, e os autores consideram, talvez que aqueles são, no mínimo, estúpidos ou ignorantes. O texto é copiado no livro na íntegra e a pergunta a sobre o gênero, para ser respondida não necessita de muitos neurônios.

Em um artigo, Affonso romano de Sant’anna diz que “Tudo é texto. Não é só quem lê um livro que lê.”, será que estas perguntas em um texto tão prosaico farão com que os nossos estudantes possam ter uma visão de mundo mais ampla, os tornarão mais argutos em suas leituras de mundo? Ou apenas é mais um exercício que terá seu início e seu fim dentro da sala de aula?

Será que contempla, ainda, Paulo Freire, quando este diz: “A leitura de mundo deve preceder a da palavra”1, os garotos, com uma faixa etária média de 14-15 anos sabem  bem o que é uma carta, mas para que perguntá-lo qual é o gênero, não seria mais profícuo estimulá-lo a produzir uma carta para um amigo ou parente, desejando-lhes saúde, paz enfim estimulando um diálogo de correspondências entre estas pessoas para estimular nelas o ato de escrever.

Sabemos que cada gênero textual possui uma variedade lingüística própria, a maioria desses alunos tem contato com e-mail, blogs, etc. fazê-los produzir uma carta convencional e notar se a linguagem empregada por eles é a mesma quando escrevem um e-mail, por exemplo, o emprego da forma “vc” no lugar do pronome de tratamento você, talvez fosse mais produtivo.

Mostrar ao aluno, por exemplo, o recurso gráfico, ao lado de Papai Noel, é muito utilizado como uma linguagem eletrônica, e surgiu a partir do advento da informática e dos correios eletrônicos. Em contrapartida, o agradecimento final “Tks”, maneira abreviada de Thanks, obrigado em inglês, já era corrente na linguagem dos jovens, por influência do domínio político e cultural norte-americano.

A pergunta “d” parece ser a mais coerente, tendo em vista o fato de perguntar-lhes se a variedade exposta no texto atende às necessidades comunicativas em questão pode aguçar nos estudantes uma maior percepção dos diferentes registros lingüísticos, porém porque não estender a pergunta para mostra-lhes outro tipos de variedades se elas conseguiriam êxito neste tipo de texto.

Creio que seria melhor propor exercícios de imaginação, de fantasia, de criatividade e, ao mesmo tempo, mostrar a vida de uma forma mais poética, com maior liberdade para cada aluno construir seu próprio conhecimento e compartilhá-lo com seus pares.

No livro destinado a estudantes do 2ª. Ano temos um estudo, por exemplo, sobre Gonçalves Dias e o indianismo, em que o texto em estudo é o canto IV de “I-Juca Pirama”, na sessão leitura.

O poema possui o seguinte roteiro de estudo:

1-Nesse canto do poema, o índio tupi narra a trajetória de sua vida e de sua tribo.

a) Como o índio via a si mesmo, até o momento em que foi aprisionado?

b) Qual é a atual condição de sua tribo?

c) Com quem e por que o índio foge?

2-Na 6ª. Estrofe do texto, o prisioneiro faz um pedido aos inimigos: “Deixai-me viver!”.

a) Que motivos alega, 10ª. E na 11ª. Estrofes, para que deixem vivo?

b) Destaque na última estrofe os versos em que o prisioneiro propõe um acordo. Qual é esse acordo?

3- Seguindo os modelos do Romantismo europeu e a atração pelo medievalismo, nossos escritores encontraram no índio brasileiro o representante mais direto de nosso passado medieval – único habitante nestas terras antes do Descobrimento. Além disso, vivendo distante da civilização, nosso índio correspondia plenamente à concepção idealizada do “bom selvagem” defendida por Rousseau. Observe o comportamento do índio tupi e indique:

a) uma característica dele que se assemelhe às do cavaleiro medieval;

b) Uma atitude dele que reforce o mito do “bom selvagem”.

Este roteiro não explora em um sentido mais amplo o belíssimo poema de Gonçalves Dias. Os dois primeiros exercícios exploram apenas a narrativa do poema e não trata em momento algum da ludicidade do poema, a partir da sua sonoridade, das mudanças de ritmo e do timbre que simbolizam a modificação do comportamento do guerreiro Tupi.

Claro que não podemos deixar de lado a narrativa, pois esta é uma das características do poema épico, contudo os autores privilegiaram apenas os aspectos da narração em detrimento do lirismo, que brota espontaneamente, que perpassa todo o poema e que transmitem aos leitores os sentimentos e as sensações mais vivas no ato da leitura.

A crítica positiva a ser feita é que, por ser o livro dividido em três partes (Literatura, Produção de Texto e Gramática), os autores não propuseram aquelas “célebres” perguntas, a saber: retire do texto três substantivos concretos, procure no poema cinco advérbios de modo. Porém por ser uma obra fragmentada, no espaço destinado á Literatura não há nenhuma pergunta que parta de aspectos gramaticais que sinalizem como recursos estilísticos do autor e que tenham sentido e expressividade no texto.

Como amostra de estudo de gramática, temos a análise do período composto por coordenação, no livro do terceiro ano. O capítulo se inicia com uma propaganda do ministério da saúde incentivando o uso de preservativos.

A descrição do anúncio é a seguinte: um preservativo cheio de água e com um peixe, metaforizando um aquário e com o título: “Pela camisinha não passa nada. Use e confie.”

1-Um cartaz tem a finalidade de informar as pessoas, sensibilizá-las, convencê-las ou conscientizá-las sobre determinado assunto.

a) Observe a parte de baixo do cartaz lido, onde há o logotipo. Quem produziu o cartaz?

b) Observe a imagem no canto inferior direito do cartaz e levante hipóteses: em que época do ano ele foi veiculado?

c) Na sua opinião, a quem o cartaz se dirige?

d) Qual é, especificamente, a finalidade desse cartaz?

2- Os cartazes são geralmente afixados em lugares públicos, em paredes e murais. Considerando quem produziu o cartaz lido, onde você acha que ele pode ser afixado?

3-Observe a imagem principal do cartaz. Considerando-se o texto verbal, o que a utilização da camisinha como aquário sugere?

4- No texto da parte superior do cartaz, há um período composto por coordenação:

Use e confie

a) Quantas orações há nesse período?

b) Há alguma conjunção ligando as orações? Qual é ela

c) Qual o tipo de relação que essa conjunção estabelece entre as orações?

●adição    ●alternância  ●conclusão  ●explicação  ●oposição

d) Como é classificada a conjunção que estabelece esse tipo de relação?

Mais uma vez, podemos observar que os autores insistem em cair no lugar comum, ou como dizia Nélson Rodrigues o óbvio ululante. O texto 1 onde definem a função de um cartaz informativo não é pertinente, tendo em vista que o livro se dirige a alunos de uma faixa etária que varia de 16 a 19 anos. Quem nunca não viu e leu um cartaz, até mesmo no espaço escolar eles são em grande número, o erro continua, ainda, na pergunta de número dois. Aqui, temos um ótimo exemplo de como esses dói autores insistem em seres redundantes. Esmiúçam um tema, privilegiando a prolixidade e não conseguem chegar a um objetivo real

A pergunta “a” tem como resposta “O Ministério da Saúde, do governo federal”, essa questão, sinceramente, poderia nem ser cogitada, já que não é inerente ao estudo do capítulo e não respeita a inteligência dos alunos nem dos professores. Aliás todas essas quatro primeiras perguntas são de um nível baixíssimo e não possibilitam nenhuma reflexão acerca da linguagem nem acerca das variadas funções do uso da camisinha.

No que tange o estudo da gramática, os autores deram pouca ênfase e partiram para a frieza dos estudo das frases soltas sem contexto, ou ainda, com um contexto esquivo. Mais um caso absurdo de redundância; primeiro eles perguntam se há alguma conjunção ligando as orações e qual é ela, depois pergunta qual tipo de relação ela estabelece e, por último pergunta como ela é classificada.

Podemos notar que o estudo desse capítulo, como fato revelador de todo o livro, privilegia a categorização apenas das nomenclaturas gramaticais, visto que a contextualização do tema não aparece de maneira eficaz e coerente, proporcionando tênues e frágeis suportes para leitura e interpretação de textos verbais e não-verbais. Além de não proporcionar aos alunos uma compreensão global dos fatos lingüísticos nem do funcionamento da língua.

Os autores têm o mérito de darem um passo qualitativo em relação a uma melhor abordagem dos estudos de linguagens, optando por não colocarem em questões que não cobram apenas classes gramaticais, isto na análise de poemas. Porém ao quererem dar ao livros ares modernos, fizeram um livro que continua engessado e engessando o ensino de Língua portuguesa e por esse motivo ao final de um curso, os alunos saem sem se lembrar das regras, sem saber como aplicá-las e abominando o “Português”. Por que, parece que se preocupam apenas que os livros sejam bem diagramados, cheios de ilustrações e com textos variados, mas não se preocupam com o objetivo maior: Ensinar.

 


Autor: Daniel Martins